01 de Setembro – O QUE É MESMO PÁTRIA?

O que é mesmo a Pátria?

Para aqueles que esqueceram as lições escolares ou que nunca tiveram por serem jovens demais e a política direitista e de esquerda terem eliminado do povo brasileiro.
Almanaque: Mauro Santayana , JB, 03 Set

O que é mesmo a Pátria?

Estamos em plena Semana da Pátria. Mas, o que é mesmo pátria? De acordo com a sua raiz etimológica, pátria é a terra de nossos pais. Quando falamos em nossa terra, ou na terra dos pais, não pensamos apenas nos acidentes geográficos que desenham a paisagem nos olhos. Pensamos em muitas outras coisas. Pensamos nas pessoas, e nos outros seres vivos próximos de nossa memória. Quem não se recorda de um arbusto florido, de um cachorro amigo, de um pássaro de galho preferido para o canto do meio-dia? Isso, no entanto, seria reduzir a pátria à intimidade de alguns quilômetros quadrados. Minha pátria é a minha língua – disse o grande poeta português. Mas há pátrias distintas com a mesma língua, como é o nosso próprio caso, com relação a Portugal. E, além de tudo, a nossa língua está conspurcada por neologismos e infectada com expressões estrangeiras.
Podemos respeitar a chamada mãe pátria, mas os nossos interesses no mundo não são os mesmos dos portugueses. E nos custou bastante a cisão necessária, em lutas sangrentas, no confronto com a repressão, no martírio dos heróis. Separamo-nos, formalmente, há 183 anos, e nossa emancipação de Portugal não está completa: seus capitais estão aqui, aplicados nas antigas empresas estatais que não deveriam ter sido alienadas.
O que é mesmo a pátria? Ernest Renan, conhecido por ter buscado nos documentos históricos a origem do cristianismo como a religião revolucionária dos pobres, procurou dar resposta à pergunta em conferência na Sorbonne, poucos anos antes de morrer. Renan resume seu excurso filosófico, ao afirmar que ”a pátria é a solidariedade”. Trata-se do vínculo profundo entre os seres humanos que vivem em espaço territorial determinado, falam a mesma língua, têm as mesmas crenças – e estão dispostas a morrer na defesa desse patrimônio, constituído de bens tangíveis e intangíveis.

A pátria brasileira, nessa definição do autor de Vie de Jesus”, antecede a independência. Ela começa a existir com os degredados que foram deixados primeiro em Porto Seguro e, mais tarde, em outras partes do litoral. Sós, naqueles ermos, aqueles homens já devem ter sentido a pátria. Pelo menos a sentiram Diogo Álvares, o Caramuru, e João Ramalho, ao se unirem, na carne, às nativas, para formar as primeiras famílias brasileiras. A pátria – e essa é outra idéia de Renan – é, ao mesmo tempo, o passado, o presente e o futuro. Ela se expressa, sobretudo, na solidariedade de todos os dias, e, em todos os dias, é construída. Como todas as coisas da vida, e a própria vida, a pátria é um processo. Há momentos em que ela se refugia no seio da família, e seus símbolos se escondem, como se escondem os ícones religiosos em época de perseguição. São os momentos terríveis da ocupação estrangeira, quando não há liberdade nacional. Mas a pátria também se refugia nos lares e na ação clandestina da resistência, quando sobre o território caem as pragas da tirania. Sem liberdade política, não há pátria soberana. Pátria é, assim, também sinônimo de liberdade.
Todas as vezes em que os brasileiros, nativos, ou não, lutaram pela liberdade, houve aqui pátria. Foi pelo Brasil – e não pela metrópole, que nos deixara à própria sorte – que os holandeses foram expulsos do Nordeste. Foi pelo Brasil que os cariocas enfrentaram os franceses e os expulsaram de sua cidade. E foi a pátria brasileira que moveu os inconfidentes mineiros. Muitas vezes, os conterrâneos se confrontam, em nome da mesma pátria, como ocorreu nos movimentos rebeldes das primeiras décadas que se seguiram à independência. Em nome da pátria se alçaram gaúchos, mineiros, paulistas e pernambucanos, ao reivindicar a descentralização do poder imperial. Em nome da integridade da pátria, combateu-os Caxias. Os revolucionários reivindicavam a liberdade dos cidadãos em suas províncias; Caxias defendia a liberdade nacional, como um todo, que a hipotética fragmentação do território ameaçava.
O principal dever do Estado – e, portanto, da política – é o de manter a soberania da comunidade nacional. Trata-se de luta permanente, constante, e com pesados sacrifícios. Como diziam os primeiros revolucionários da América Espanhola, ”hay que hacer patria”. Se fazer pátria é agir assim, destruir a pátria é fazer o contrário. Quando os governos enfraquecem a comunidade nacional, passando ao controle estrangeiro setores estratégicos da economia, quando aceitam imposições dos mais fortes, e quando fecham o acesso de brasileiros a áreas do território nacional, como está ocorrendo em algumas regiões indígenas, ao mesmo tempo em que o permitem a pesquisadores estrangeiros, estão, naturalmente, desfazendo a pátria.
São essas as reflexões imperativas sobre o Brasil destes últimos e tristes dez anos, nesta semana em que lembramos todos os que, antes de nós, com sua vida e seus sentimentos, fizeram pátria em nossa terra.

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